Quimera

Descrever o que vejo, sufocar com o que sinto!
Um brinde à dor de ver você saciar-se com lembranças que não remetem a mim. Viver num clichê e descrever plágios. Sei lá, por vezes cansa. Só acho! Hoje não vou deixar-me asfixiar com as palavras pressas na garganta, então me humilho ao implorar para que parte minha deixe de fantasiar. Impressionante que volto a cometer os mesmos erros. Aprisionada nesse labirinto sem saber se abandono o que sou ou se busco quem fui. Passado e presente se encontram outra vez, me obrigando a olhar para aquele mesmo espelho sem reconhecer o que lhe é refletido.
Olha moço, você não me deve explicações assim como não quero ouvi-las. Simplesmente veja que sou mais que a birra da noite passada. E não sorria ou chore com as minhas atitudes antes de desvendar a motivação por trás delas. Não fique perturbado se o texto estiver fragmentado enfim, os soluços não deixam que algumas frases se encaixem.
Temo perder seu modo de me ninar, o gosto de me fazer sorrir, o calor da tua proteção... Mas não afasto dos meus pensamentos o fato de te deixar. Dói menos! Sem brigas, sem lágrimas, sem arranhões. Posso até abrir mão das coisas boas. Infantilidade querer ser humano e não assumir tal postura. Foram tantas perdas no caminho que creio eu, não suportar se quer mais uma.
Cada célula do meu corpo anseia ao máximo cada cantinho seu. E meu sistema de defesa entra no vermelho quando ponho os olhos em você. A mais cruel e dolorosa infidelidade que transpira em mim é a impugnação. Tem coisas que não são agradáveis ouvir, mas percebemos o quão aveludadas são as palavras quando presenciamos de fato (...)

Para um amor quase possível

Posso pedir-te para guardar um segredo, mesmo que este esteja gravado em um papel amassado? Vi em um fim de semana paginas com algo escrito e imediatamente lembrei-me de você. Tentei não me imaginar copiando palavras que não eram minhas, mas que conseguiam descrever cada pedacinho teu, cada arrepio meu, tudo que minha covardia não permiti expressar. Não sei mais o que ou como dizer o que outra pessoa roubou de mim, então faço das palavras dela, as minhas! (...)

“E de repente o mundo inteiro cabe em um abraço, dorme no mesmo espaço e carrega no rosto a barba de semana passada. De repente eu perco o rumo, descanso os olhos e abrigo meus medos em um sorriso, em um abismo, que grita em silêncio os distúrbios e vantagens causados por um pulo meu. De repente eu sucumbo a loucura, abandono a razão, encho de companhia essa minha solidão e alivio. De repente eu consigo ver de longe, quase que embaçado ainda, alguém desatando meus nós, me reduzindo ao pó, e me montando novamente. De repente eu vejo você, moço, brincando com as minhas manias e guardando a nossa saudade na gaveta da sala.” N.B.

O tempo apaga


"E se apaga a gente tenta sem medo ou a gente tenta o mínimo, pois se não der certo não gastamos muito tempo? O que fica no mundo do que restou de um amor? Calendários marcam os dias, não o quanto faz falta, relógios as horas, não o quanto sufoca, passam dias e horas, não o que eu sinto aqui. Amigos me abraçam e me ouvem, mas não têm a sua voz, viagens me levam e me movem, só não há um destino chamado “Nós”, na mala o espaço para o abraço que eu queria sentir. Mapas indicam caminhos, não onde você está, placas a distância, não como reaproximar, caminhando em lembranças ainda posso te alcançar. Sorrisos revelam como é quando o sonho com a esperança condiz, com os olhos eu torço para ver a verdade, mas você ainda é a saudade de nenhum esforço para ser feliz. Cadernos trazem páginas vagas do que posso escrever, o tempo a chance de recomeçar, se eu escrever a nossa história ao contrário vamos de distantes no mundo a quem encontrou alguém para amar. Filmes mostram o quanto o amor pode ser lindo, não o que você vive, livros pedem que você vire a página para que a história siga, mas às vezes nem virar a página na vida faz com que a história termine. Pássaros voam tão livres para continuar, o céu que para uns é sonho para outros é estrada, é chão, ainda sem asas, você não imagina o quanto eu iria longe para o tempo voltar. Pensar traz novas idéias, mas não desfaz lembranças, recordar afaga a saudade só não mata a vontade, acordo pensando que cada novo dia poderia ser a reprise do dia mais feliz que vivi junto a ti. Espelhos me mostram sem refletir quem eu quero, fotos recordam o quanto foi sincero, nem segurando a sua foto em frente ao espelho eu te teria por perto. Do perto que eu queria. Que caiam as paredes de saudade, destruam tetos de orgulho, sumam quartos de tanta indiferença, enquanto se erguem portas de um amor de verdade e se mostram janelas para um futuro onde a felicidade pede licença. Dói quando o que está mais perto é a certeza de se estar cada vez mais longe de você. O quão perto de alguém pode ser o estar distante deste alguém que amamos? “O tempo apaga”, alguém me contou, talvez tentou apagar e não nos encontrou. Tem amor que o tempo apaga, tem amor que o tempo deixa a pagar, com o preço de saudade, com o troco de esperança, com a entrega em uma vida onde possa funcionar."
▬ Ruleandson do Carmo